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Conversa

Conversa com Inês Salgado, arquitecta

Gracio PropertiesÉvora8 min de leitura

Sobre cal viva, taipa, e por que insiste em projectar herdades sem caixilhos de alumínio.

Inês Salgado recebe-nos no atelier que montou num antigo armazém de cortiça, dentro das muralhas de Évora. Há vinte anos que projecta e recupera herdades no Alentejo interior, e ganhou fama por uma teimosia rara no sector: recusa-se a usar materiais que não envelheçam bem. Conversámos uma manhã inteira sobre cal, taipa e a paciência que o barro exige.

Começou com a cal. Porquê?

Porque a cal viva respira. Uma parede de taipa caiada deixa passar o vapor, regula a humidade, mantém a casa fresca em Agosto sem ar condicionado. Quando se tapa uma parede dessas com tinta plástica, sela-se a casa como se fosse um frigorífico. Ela apodrece por dentro e ninguém percebe até ser tarde.

Uma casa boa não se defende do clima. Negoceia com ele.
Inês Salgado

E o alumínio? É quase uma cruzada sua.

É uma questão de honestidade. Pôr um caixilho de alumínio anodizado numa herdade do século XVIII é mentir sobre a casa. A madeira empena, exige manutenção, custa mais — mas é verdadeira. E quando se senta à janela ao fim do dia, a diferença sente-se. O alumínio está frio mesmo quando está sol.

Montado alentejano — a paisagem que Inês diz condicionar cada projecto.
Montado alentejano — a paisagem que Inês diz condicionar cada projecto.

O que diria a quem está prestes a comprar uma herdade?

Que ande lá às horas todas antes de assinar. De manhã cedo, ao meio-dia, à noite. As casas mudam com a luz e com o vento, e há defeitos que só se revelam quando o sol bate de lado. E que não tenham pressa de a mobilar. Uma herdade pede para ser habitada devagar — primeiro percebe-se onde se quer estar, só depois se constrói à volta disso.

Saímos do atelier quase à hora de almoço, com a sensação de que tínhamos aprendido menos sobre arquitectura e mais sobre paciência. Talvez seja essa a verdadeira matéria-prima de quem trabalha com terra.