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A última azenha do Côa

Gracio PropertiesVale do Côa, Guarda6 min de leitura

Subir o vale e encontrar pedra molhada, lentes de musgo, uma roda de mó imóvel há sessenta anos.

Chega-se à azenha por um carreiro que o GPS não conhece. Deixa-se o carro à entrada de Cidadelhe e faz-se o resto a pé, vale abaixo, com o som do rio a crescer a cada curva. Quando finalmente aparece, encostada à margem como se tivesse nascido da própria pedra, percebe-se que ninguém a construiu para ser vista — construíram-na para trabalhar.

A porta cede com um empurrão suave. Lá dentro, o ar é frio e cheira a água parada e a farinha antiga. A roda de mó está imóvel há mais de sessenta anos, mas a engrenagem permanece inteira, lentes de musgo a fechar as juntas da pedra. O tempo aqui não destruiu — apenas guardou.

Quem moía e quem ficava

O senhor Albano, o último moleiro vivo da aldeia, tem oitenta e nove anos e ainda se lembra do ritmo da água nas comportas. Conta que se moía a trigo e a centeio para metade do concelho, que as mulheres desciam o vale com os sacos à cabeça e que, no Inverno, o caudal subia tanto que era preciso parar tudo durante semanas.

A azenha não para porque deixou de servir. Parou porque deixou de haver quem descesse o vale.
Albano Ferreira, último moleiro de Cidadelhe

É essa a história que estas propriedades carregam — não a da ruína, mas a do abandono lento de um modo de vida. Recuperar uma azenha não é restaurar um edifício; é decidir o que se faz com o silêncio que ficou.

O vale do Côa ao fim da tarde, a poucos quilómetros da azenha.
O vale do Côa ao fim da tarde, a poucos quilómetros da azenha.

O que se pode fazer com a água

A estrutura está sã. As paredes de xisto têm um metro de espessura e a cobertura, refeita nos anos cinquenta, aguentou. Com a licença de utilização de água — que ainda consta nos registos — é possível pensar num refúgio que respeite a planta original: o piso da moagem como sala, o sobrado como quarto, a levada reaberta a correr à porta.

Não é para todos. É para quem entende que comprar isto é herdar uma responsabilidade tanto quanto uma escritura. E é exactamente por isso que a guardámos para o fim desta carta.