
Caderno
Currais de pedra negra do Pico
Caderno de viagem aos currais do Pico — a paisagem mais improvável de Portugal.
Aterra-se no Pico com a montanha escondida nas nuvens e a primeira coisa que se vê, ao descer para a costa, é uma malha infinita de muros pretos. São os currais — milhares de pequenos quadrados de pedra vulcânica erguidos à mão para abrigar as vinhas do vento e do sal do Atlântico. Vista de cima, é uma paisagem que parece desenhada por engano, e é Património Mundial.
Dia um — Madalena à Criação Velha
Saímos da Madalena a pé pela orla. O chão é basalto puro, negro e poroso, e entre as pedras crescem as cepas baixas, agarradas ao solo como se tivessem medo de levantar a cabeça. Um produtor explica-nos que a vinha aqui não tem terra — as raízes procuram a humidade nas fendas da lava. O verdelho que daqui sai foi servido nas cortes da Rússia czarista.
“Cada muro destes é um homem a menos no mar. Construíram-nos quando não havia mais nada para fazer com a pedra.”

Dia dois — as adegas de maré
Na Criação Velha sobram dezenas de adegas térreas, de telhado baixo e porta virada ao mar, onde antigamente se guardava o vinho à espera dos barcos. Muitas estão fechadas há décadas. Algumas — poucas — começam a renascer como casas, sem perder a planta nem a pedra. É um equilíbrio delicado: aqui não se demole, restaura-se muro a muro, com a mesma pedra que o mar devolve.
Fechámos o caderno ao terceiro dia, no cais da Madalena, com a montanha finalmente visível ao longe. Levámos a certeza de que esta é a paisagem mais improvável de Portugal — e talvez a que melhor recompensa quem tem a coragem de a habitar.

